sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Meninos de Tóquio

O segundo lançamento cronológico em DVD, no Brasil, de Yasujiro Ozu recebeu o nome de "Meninos de Tóquio". O título original do filme, no entanto, é "Eu nasci, mas...". Títulos como este já tinham aparecido em obras anteriores dirigidas por Ozu: "Formei-me, mas..." (de 1929) e "Fui reprovado, mas..." (de 1930).
A presente película, ainda representativa do cinema mudo, foi lançada no dia 3 de junho de 1932. Novamente, como acontecera no anterior "Coral de Tóquio", trata-se de uma comédia com nuances dramáticas. Mais uma vez ocorrem os conflitos familiares provenientes das relações entre assalariado e chefe. No entanto no filme, que ora comentamos, a situação não é de desemprego, ou de sub-emprego, como ocorria em "Coral de Tóquio".
Em "Meninos de Tóquio", Yoshii (Tatsuo Saito) e sua esposa (Mitsuko Yoshigawa) vivem com os dois filhos: o mais velho (Hideo Sugawara) e o mais novo (Tokkan Kozo). O pai, desta feita, está empregado e tem como chefe Iwazaki (Takeshi Sakamoto). Os filhos são inicialmente hostilizados por uma gangue de garotos da vizinhança, que tem um valentão como líder. Desse grupo hostil faz parte o garoto Taro (Seiichi Kato), filho de Iwasaki. Os filhos de Yoshii que estudam na mesma escola dos meninos da gangue chegam a faltar nas aulas, temerosos das malvadezas do valentão e seus amigos. A exibição na residência do chefe, com a presença da sra. Iwazaki (Teruyo Hayami), de Taro e dos demais membros da gangue, de um filme caseiro em que Yoshii faz o papel de palhaço, para o deleite do superior, faz com que os dois garotos se sintam envergonhados e se voltem contra o pai. O sentimento de vergonha também estava presente em "Coral de Tóquio". Naquela oportunidade, o filho revelava seu desagrado por ver o pai, carregando cartazes na rua, para fazer propaganda do restaurante de um antigo professor.
Os filmes de Yasujiro Ozu demoraram para serem reconhecidos no Ocidente. Os próprios críticos nipônicos foram responsáveis por essa demora. O fato de considerarem o cineasta "o mais japonês dos diretores" prejudicou a penetração da obra de Ozu na Europa e nos Estados Unidos. Suas películas "não tinham estória" e o pouco de enredo, que apresentavam, dizia respeito aos conflitos da vida familiar. Não eram filmes de época, como a maioria daqueles dirigidos por Akira Kurosawa e Kenji Mizoguchi, que apresentavam fascínio para europeus e americanos. O crítico Marvin Zeman, da revista americana The Film Journal, em 1972 escreveu sobre sua surpresa e admiração ao assistir a "Eu nasci, mas...". Considerou a fita como sendo uma comédia não americana deliciosa, comparável às realizadas por Buster Keaton, Charles Chaplin e Harold Lloyd.
No Japão, em 1932, Ozu recebeu, pela primeira vez, o Prêmio de Melhor Filme do Ano, na votação da famosa revista Kinema Jumpo. O sucesso de crítica, no entanto, não se repetiu nas bilheterias. No elenco, Tatsuo Saito, Hideo Sugawara e Takeshi Sakamoto já haviam aparecido em "Coral de Tóquio". O primeiro, apesar das imagens cômicas que representa, para satisfazer o gosto do chefe, revela uma discreta dose de humanismo. Hideo Sugawara repete o papel de filho birrento que apresentou em "Coral de Tóquio". Takeshi Sakamoto mais uma vez confirma as qualidades reveladas na fita anterior. A interpretação mais engraçada do filme fica por conta do garoto Tokkan Kozo, o filho mais novo, que, com suas caretas e com as imitações que fazia do filho mais velho, nos brinda com uma atuação inesquecível. Os dois irmãos apresentam, nesta película, uma característica frequente em vários filmes do diretor: a disposição dos personagens em formas similares de modo que os dois se integrem como se fossem uma única pessoa.
O fotógrafo é Hideo Mohara que, mais uma vez, traduz perfeitamente as intenções de comunicação pretendidas por Ozu.
A cópia do DVD (Cinemax), ao contrário do que ocorria com a de "Coral de Tóquio", é excelente, o que acentua a obrigatoriedade de visão desta indiscutível obra prima.